sexta-feira, setembro 19, 2003

A difícil tarefa de iniciar

No Centro Cultural de Belém pode ser visitada a colecção do Instituto de Arte Contemporânea do Ministério da Cultura. Initiare apresenta a primeira parte de um acervo, adquirido entre 1997 e 1999, que constituirá um novo museu de arte contemporânea, e que terá o seu espaço físico nesse mesmo centro. Esta colecção de arte contemporânea pertence a uma instituição pública que assume desde logo uma marcada opção pedagógica e estratégica devido ao estado do panorama nacional, assim, e como refere Margarida Veiga, “Portugal é um país onde o coleccionismo nacional é escasso e o internacional quase inexistente, o envolvimento das entidades públicas é um factor determinante como incentivo do gosto público e como fomento do comércio de arte, assumindo o Estado um papel orientador junto dos privados”.
Para entender o porquê da situação enunciada pela directora do centro de exposições do CCB talvez tenhamos que recuar mais de dois séculos. O museu como instituição pública é uma noção profundamente moderna, que surge no século XVIII fruto das transformações sociais, ideológicas e políticas. É a época do predomínio da razão, do espírito enciclopedista, da sistematização, que se revela também na acentuação dos valores culturais e políticos das colecções, em detrimento da primazia do prestígio social ou da ostentação. O museu reflecte, então, a história e as suas lições, numa apertada trama cronológica, e a exposição, ordenada temporalmente, passa a ser um dispositivo pedagógico.
Só em 1833 é criado o primeiro museu público no nosso país, o Museu Portuense, o qual, pensava João Baptista Ribeiro , incutiria “até nas ultimas classes do Povo o gosto do bello, o amor e o sentimento das Artes”. O museu só viria a ser inaugurado em 1840, mas o projecto desta instituição não tinha sido realizado segundo os pressupostos iniciais , apresentando uma confrangedora pobreza. Seis anos mais tarde o Conde Raczynski publica em Paris Les Arts en Portugal onde descreve de forma bastante elucidativa a escassez de coleccionadores, estes reduziam-se ao Conde de Farrobo e ao Duque de Palmela, porque de resto “ninguém em Portugal desejava gastar um tostão com as Belas Artes”. No início do nosso século, em 1911 é criado o Museu Nacional de Arte Contemporânea, no entanto “sempre se manteria um museu passivo (…) condenado por um esquema passadista” . Assim durante todo o século XX, e fora a iniciativa privada, apontando como paradigma a acção da Fundação Calouste Gulbenkian, a sociedade portuguesa, fruto de incapacidade política, económica, e cultural, nunca entendeu o valor da estética como meio para passar da vida sensível para a vida racional, criando-se uma sociedade que se baseasse na racionalidade e na liberdade imbuída de valores estéticos.
Apenas em 1999, com a exposição Circa 1968, é inaugurado o Museu de Arte Contemporânea de Serralves. No catálogo, Vicente Todolí e João Fernandes reflectem sobre a ideia de museu e de colecção em Serralves, e apresentam “um projecto museológico, uma filosofia de colecção e um conjunto de experiências artísticas que se definem pela superação dos limites de qualquer programa que as pretenda caracterizar e condicionar” . Tenta-se aqui, pela primeira vez num museu de arte contemporânea em Portugal, afirmar “que o papel do museu não é a apresentação de modelos-padrão, mas sim o aprofundar de certas diferenças específicas. Sendo a partir deste conceito que esperamos possibilitar o diálogo entre diferentes opções e pontos de vista, o diálogo que torna a arte uma experiência abrangente e enriquecedora”.
No caso de Initiare, a colecção, que foi constituída como o acervo de um futuro museu, apresenta-se antes do projecto museológico, e o texto de Isabel Carlos exprime e explana as premissas, os critérios e as escolhas tomados na constituição da colecção, seguidos pela comissão de compras constituída, para além da sub-directora do IAC, também por Margarida Veiga, Fernando Calhau, Vicente Todolí e João Pinharanda. Uma colecção e um museu são, como refere Douglas Crimp em The Postmodern Museum, espaços de exclusão e confinamento, e como tal os artistas e as obras escolhidas para qualquer destes espaços reflectem, mais do que uma sucessão de desejos, uma estratégia que afirma juízos valorativos, que já não necessitam da reconfortante distância histórica, que Isabel Carlos diz, e com razão, ainda não existir. Porque devido a uma consciência diferente do tempo, causada pela sensação contemporânea de detenção do futuro, temos a sensação “que vivemos já a história” porque, “entre outras coisas os museus de arte contemporânea fixam já a sua imagem para as gerações vindouras”, deste modo “esta não nos reserva mais surpresas” . Deste ponto de vista, o nosso século em Portugal não fixou essas imagens, e é, por isso, compreensível José-Augusto França referir, que até aos anos 80, “cada geração de artistas nacionais se vê assim na situação trágica e absurda de criar ou imaginar a sua própria genealogia”. Assim, é difícil iniciar algo com um sentimento de perda e de falha sempre presente, e como tal qualquer colecção de arte contemporânea, em Portugal, é um alvo fácil para críticas amargas ou gratuitas. No entanto, não devemos deixar de ter uma posição crítica, no sentido construtivo, face a uma colecção, como a do IAC, que pretende mostrar obras que são representativas das problemáticas e práticas artísticas do presente. Apesar do interesse e coerência da colecção agora apresentada, sabemos hoje que as obras de qualquer colecção de arte contemporânea são apenas representativas de algumas das problemáticas e práticas artísticas do presente. E é com essa honestidade conceptual e política que devemos abordar as questões do coleccionismo e da museologia de arte contemporânea. Até porque um dos direitos do artista, segundo Bonito-Oliva, é a maravilhosa possibilidade de traição de todo o tipo de modelos.

Initiare, no CCB até 7 de Janeiro de 2001.
Artistas representados: Augusto Alves da Silva, Markus Ambach, Txomin Badiola, Christine Borland, Luísa Cunha, Eugenio Dittborn, Jimmie Durham, Entertainment & Co, Ângela Ferreira, Douglas Gordon, Mariko Mori, Miguel Palma, João Penalva, José Fernando Pereira, Joana Rosa, João Tabarra, Sam Taylor-Wood.





Susana Mendes Silva, Dezembro de 2000
Texto submetido para publicação na revista Flirt, Lisboa, Portugal